Mito

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Estava voltando do meu curso de espanhol, sábado pela manhã. Foi então que testemunhei uma cena que me fez pensar na hora: “Que cidade louca!”. Vi, pela primeira vez, o rei do rock’n’roll, em plena Avenida Paulista. De botinha branca de bico fino, camisa aberta, calça apertada, óculos com a costeleta embutida e muito gel, o homem que dava vida ao Elvis, fazia da lixeira o seu palco e do orelhão, seu camarim.

E antes que eu pudesse achar que se tratava de uma gravação para algum seriado anos 60/70, comecei a ouvir aplausos e gritinhos dos que passavam. Foi quando Marcio Henrique de Aguiar, o Elvis da Paulista, começou a cantar Suspicious Mind. Nessa mesma hora, o sinal – farol para os nativos de Essepê – fechou e o ônibus que passava abriu a porta para que ele subisse. Sem dúvida, esse é o momento ápice da apresentação. Sob muitos aplausos, o Elvis paulistano cantou em show particular para os 15 passageiros do ônibus. Arrasou!

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Como todos sabem, Elvis não morreu. Está na Avenida Paulista, em frente ao Shopping Center 3.

Matéria publicada no São Paulo Times, dia 20.11.14.

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De hospital abandonado a maternidade de ideias

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Já disse aqui, mais de uma vez, sobre o erro de querer achar a sua cidade em outra, quando você precisou deixá-la por qualquer motivo. Ficar comparando uma cidade praiana, como o Rio, com uma grande metrópole, como São Paulo, é uma atitude instintiva na maioria das vezes, mas convenhamos quase sempre desprovida de bom senso.

A maior cidade do Brasil não possui praia, biscoito Globo, nem quiosques à beira mar. Mas nem por isso é menos interessante. Pelo contrário. São Paulo é uma cidade que se reinventa a todo instante e que está sempre na moda, colocando a sua criatividade em ação para se transformar em um espaço melhor.

O exemplo mais recente dessa singularidade da cidade é a exposição “Made By… Feito por brasileiros”, no antigo Hospital Umberto Primo, na Alameda Rio Claro, 190 – Bela Vista. Se trata de um novo rumo para um enorme e histórico prédio que permaneceu fechado nas duas últimas décadas.

Com curadoria de Marc Pottier e Simon Watson, a exposição que reúne obras de mais de 100 artistas brasileiros e internacionais, acontece no mesmo espaço que viu nascer 500 mil paulistanos.

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O prédio foi construído em 1904, através de doações da colônia italiana, para atender a sua gente. A maior doadora foi a família Matarazzo, e daí o apelido que ganhou de “Hospital Matarazzo”. No ano seguinte à inauguração, a proposta do hospital mudou, passando a atender pacientes de todas as origens e classes sociais, gratuitamente. Foi fechado em 1993 por falta de recursos e vendido à Previ – Caixa de Previdência dos funcionários do Banco do Brasil – em 1996, para possíveis negociações futuras.

Como alguns prédios do complexo foram tombados após a compra, a jóia rara da Previ acabou largada, sujeita a todo tipo de intempérie. Foi ressuscitada recentemente com a compra pelo grupo Allard, proprietário do hotel 5 estrelas Le Royal Monceau, em Paris.

A ideia do grupo é transformar o espaço de 27 mil metros quadrados em um centro de criatividade, que incluirá salas de cinema, teatro, estúdios de produção para filmes, música e arte, espaço para o desenvolvimento de artesanato e moda, além de um hotel de luxo bem no coração de São Paulo.

A exposição “Made By… Feito por brasileiros” foi criada para chamar a atenção para o novo futuro do prédio. A reforma começará assim que a exposição acabar e terminará somente em 2018. Ou seja, a expo é uma oportunidade única de ver obras de artistas consagrados – como Tunga, Vik Muniz, Beatriz Milhazes, Lygia Clark, entre outros –, em um espaço que parece mal assombrado tamanho o descaso no qual se encontrava. É de arrepiar. E não é pouco…

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“Made by…Feito por brasileiros”: Endereço: Alameda Rio Claro, 190 – Bela Vista. De 9 de setembro a 12 de outubro. Terça a domingo, das 9h às 17h. Entrada gratuita.

Matéria publicada no São Paulo Times, dia 18.09.14.

Flores recicladas ganham um nobre destino na Pauliceia

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Quem acha que São Paulo é uma cidade cinza, fria e com poucas opções de diversão baratas é porque nunca esteve na cidade ou pior ainda, nunca se dispôs a ver o que ela tem de melhor. Esse é o principal problema dos estereótipos. Mas uma vez superados (ufa!), surge uma cidade rica e instigante.

A realidade é que em cada esquina da Pauliceia existe um recanto a ser explorado e admirado. Pode ser uma loja diferente, um movimento artístico novo, um museu com uma coleção peculiar, ou mesmo um projeto voluntário encantador. Por que não?

Esse projeto, que eu tive o privilégio de conhecer no último domingo, é uma das coisas mais lindas que já encontrei na Pauliceia. Criado em 2010 pela florista Helena Lunardelli, o Projeto Flor Gentil, como o próprio nome sugere, consiste num ato simples, mas muito gentil.

A ideia é proporcionar um novo e nobre destino às flores que decoram casamentos, formaturas e aniversários e que, quase sempre, acabam no lixo. De que forma? Uma vez doadas ao projeto, elas passam pelas mãos da equipe de voluntários e se transformam em pequenos arranjos que serão levados até aqueles que mais precisam de amor, carinho e atenção: moradores de asilos e casas de repouso.

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O trabalho é semanal e realizado por vários voluntários em um galpão na Vila Madalena. Não, não é preciso ser nenhum especialista em flores para ajudar. Basta aparecer lá com vontade que os voluntários mais antigos se encarregam de ensinar a desfazer os arranjos doados, a selecionar as melhores flores e a montar os pequenos arranjos que serão entregues.

A minha ideia no último domingo era conhecer o espaço e acompanhar de perto o trabalho dos voluntários. Mas em pouquíssimo tempo, já estava completamente envolvida, de avental e tesoura (para a poda) na mão. Além dos arranjinhos que seriam entregues posteriormente, recebemos a missão de montar 28 buquês até às 11h para um casamento muito especial: da Cleonice (61) e do Samuel (76). É ou não é lindo esse projeto?

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COMO AJUDAR? É possível ajudar de duas formas: doando as flores do seu evento ou como voluntária na montagem e entrega dos arranjos. Na primeira opção, basta entrar em contato com o Flor gentil para agendar a retirada das suas flores e a entrega no galpão. Já como voluntário, é preciso aparecer no dia e hora marcados para a confecção e entrega. Oficialmente, o projeto funciona de domingo a quarta, mas como depende da quantidade e do estado das flores doadas, muitas vezes o horário varia. Por isso, o ideal é enviar um e-mail pra lá e pedir para ser incluída no mailing onde são divulgadas as datas e horários de funcionamento.

Flor Gentil: Rua Raul Adalberto de Campos, 101 – Vila Madalena. Tel: (11) 3031-5861 | E-mail: contato@florgentil.com.br | www.florgentil.com.br

Matéria publicada no São Paulo Times, dia 04.09.14.

Floração das cerejeiras em São Paulo

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Você sabia que em São Paulo comemora-se a floração das cerejeiras, tal como acontece no Japão? Pois é. Muita gente não sabe. Mas o evento foi incorporado ao calendário paulistano há alguns anos pelos próprios donos da festa: os imigrantes japoneses e seus descendentes.

As cerejeiras, conhecidas como “Sakura”, são pequenas flores de cor rosa que florescem entre o fim de março e o início de abril no Japão, marcando a chegada da primavera. Durante os festejos, que atraem milhares de turistas do mundo inteiro, os japoneses costumam praticar o Hanami (hana significa flor e mi, ver): o ato de contemplação das cerejeiras. À sombra das árvores, confraternizam o momento com um piquenique entre amigos e parentes e por isso, esses lugares costumam ser muito disputados. Há inclusive quem chegue na noite anterior para “reservar” a sua árvore.

Aqui, em São Paulo as cerejeiras podem ser vistas no início do inverno, no Parque do Carmo. A versão brasileira da festa já está em sua 36ª edição e nesse final de semana (dias 2 e 3 de agosto) reunirá a comunidade nipônica que vive por aqui. Tal como acontece no Japão, a sombra das árvores será bem disputada para piqueniques mesmo porque, reza a lenda que se uma pétala cair dentro do seu prato você terá boa sorte durante o ano.

Infelizmente, o espetáculo cor de rosa não dura mais de duas semanas. As suas delicadas pétalas caem rapidamente com o sopro do vento e é por essa razão que a árvore tem como significado a fragilidade da vida; cuja maior lição é aproveitar intensamente cada momento. Portanto, reúna os amigos nesse final de semana e curta intensamente cada instante aos pés das cerejeiras paulistanas.

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36ª Festa das Cerejeiras: 
02 e 03 de agosto de 2014, das 9h às 17h. 
Local: Parque do Carmo – Portão 3
. Endereço: Av. Osvaldo Pucci, s/nº, – Itaquera. Haverá transporte gratuito da estação de metrô Corinthians Itaquera direto para o parque a partir das 9h.

Matéria publicada no São Paulo Times, dia 31.07.14.

Klift Kloft Still, depois de três horas na fila, a porta se abriu!

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Era uma vez, em um lugar não tão distante do centro da Pauliceia, um castelo causava alvoroço entre uma legião de fãs e curiosos. Ele era encantado e por isso, atraía gente de todas as idades. Todo mundo queria conhecer seus cômodos, seus segredos e mais do que isso, interagir com os seus moradores e elementos fantásticos.

Assim me senti enquanto aguardava a minha vez de entrar. À exceção da fila, tudo era perfeito. Era como se eu realmente estivesse vivendo em um conto de fadas. E essa sensação, confirmada posteriormente, deve-se ao fato de que a exposição em homenagem aos vinte anos de veiculação do Castelo Rá-Tim-Bum é tudo aquilo que seus fãs sempre quiseram ver. Ou você nunca quis entrar no quarto do Nino através da porta giratória?

Depois de três horas na fila, finalmente cheguei à entrada do castelo. Tal como acontecia no programa, o porteiro de lata azul dava instruções malucas aos visitantes sobre como entrar e agir lá dentro. Mas não foi preciso pular num pé só ou acertar a charada. Ela se abriu sem muita dificuldade e já no “hall” do castelo, foi possível conferir peças históricas do programa, como roteiro do primeiro episódio, o convite para a festa de lançamento em 1994 e o making of da vinheta.

Depois de passar pelo Relógio, o detentor da pontualidade do castelo, cheguei à biblioteca. O ambiente, como todos os outros retratados é fiel ao programa, e tem o seu maior guardião sentado na poltrona. Na exposição, é possível puxar um livro da estante sem que o Gato Pintado reclame. E o livro ainda fala!

Na sequência, visitei o laboratório dos cientistas malucos Tíbio e Perônio, a oficina do Dr. Victor e o subterrâneo do castelo até chegar a sala de música. Você lembra da Pianola? Ela está lá pronta para ser ativada. A engenhoca foi feita pelo Dr. Victor e tal como no programa, faz os bailarinos dançarem de acordo com a melodia. Ali, também podem ser encontradas algumas relíquias, como o Circo do Nino, a Caixa de Música e o Desenho Mágico.

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Dividindo espaço com a sala de música, está a sala da lareira com seu globo terrestre, a caixa preta e o tabuleiro de xadrez. À medida que se vai avançando no castelo, vamos nos lembrando dos figurinos e conhecendo o processo de criação de cada personagem. Até a sua versão final, são realizados vários testes de caracterização e na exposição, você descobre que o Nino, por exemplo, poderia não ter tido o seu característico cacho espetado ou que o Dr. Victor poderia ter ficado com a cara do Albert Einstein. Não senti falta de nenhum personagem. Está todo mundo lá, inclusive os “turistas” Etevaldo, Caipora, Bongô (entregador de pizza) e Penélope, a repórter cor de rosa.

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Depois de passar pela sala da lareira, cheguei à cozinha cheia de gavetas. Elas podem ser abertas e em algumas delas, é possível encontrar algumas curiosidades sobre o programa da TV Cultura. Ao lado dela, encontra-se o ambiente mais especial da exposição: o saguão! Era nele que boa parte da trama era encenada. Era nele também que ficava a árvore centenária da Celeste e a porta giratória do quarto do Nino.

Pra chegar até o quarto da Morgana é necessário subir a escadaria. Lá, é possível interagir com um caldeirão e tirar uma foto com a fiel gralha Adelaide. Os cômodos seguintes são: o ninho do trio musical “João de Barro e as Patativas” e o lustre das fadas Lana e Lara. Na saída do castelo, está o Doutor Abobrinha escondido entre sacos de lixo e arbustos.

Seu plano maligno de demolir o castelo e construir, em seu lugar, um prédio de cem andares não dará certo. Nunca deu. Mas a exposição tem uma data limite. A principio, vai até o dia 12 de outubro no MIS. E para que o conto de fadas não se transforme em pesadelo, é preciso chegar beeeeem cedo.

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O Museu da Imagem e do Som de São Paulo – MIS – fica localizado na Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo (SP). Terças a sextas das 11h às 21h, sábados das 9h às 23h e domingos e feriados das 9h às 20h. O ingresso custa R$ 10 e R$ 5 (meia).

Matéria publicada no São Paulo Times, dia 24.07.14.

Janelas da Pauliceia

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Depois de quase dois anos morando na Pauliceia, ainda me perguntam, incrédulos, como é possível eu amar essa cidade. Para os nascidos no Rio, isso é impossível. A maior cidade do Brasil não possui praia, biscoito Globo, nem quiosques à beira mar. Também não possui nenhum visual deslumbrante daqueles capazes de impressionar até os mais “insensíveis”.

Mas se você vem de outro lugar, não caia no erro de querer achar a sua cidade na Pauliceia. São Paulo pode oferecer muito mais do que você já viu por aí, basta estar de coração aberto e olhos bem atentos.

As coisas mais interessantes de uma cidade nem sempre figuram as listas “the best of“. Muitas vezes, aparecem camufladas. Exemplo disso é o “Esparrama pela Janela”. Trata-se de um respiro; uma fresta de arte no meio do caos, barulho e poluição da cidade grande. Um verdadeiro alívio!

O achado ocorreu durante uma feirinha gastronômica. Caminhando pelo Minhocão (Elevado Costa e Silva), indo ao encontro das foodtrucks, acabei passando por uma janela com o seguinte dizer: “Esparrama pela Janela. Próxima sessão: dia 01/06, às 16h”. Fiquei curiosa com a mensagem e no dia e hora marcados, lá fui eu conferir.

O trecho do Minhocão, de frente para a janela, já estava cheio quando cheguei. E a brisa que soprava surpreendentemente forte (Lembre-se de que sou carioca, então minha descrição do tempo frio às vezes é um pouco exagerada) não serviu de empecilho para as dezenas de pessoas que já se encontravam sentadas.

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O espetáculo é encenado ali mesmo, na janela de um edifício da rua Amaral Gurgel. Com 45 minutos de duração, conta a história de um morador que cansado de conviver com o barulho e poluição que entram diariamente por sua janela, resolve transformar o caos em música e poesia. O palco? Não poderia ser outro.

Logo no começo do espetáculo, os batentes da janela são trocados por outros mais lúdicos e uma floreira é instalada. Na sequência, aparecem os personagens, como uma família de monstros, um seresteiro gigante e uma princesa no melhor estilo “Rapunzel, jogue suas tranças”. E com todas essas figuras fantásticas, a uma distância de apenas 7 m, é impossível não se deixar render por esse cantinho da Pauliceia. Vale a pena conferir!

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P.S 1: O Projeto Janelas do Minhocão, do Grupo Esparrama, foi selecionado recentemente para o Projeto Rumos Itaú Cultural. Com isso, o Minhocão ganhará uma nova temporada do Esparrama pela Janela, além da montagem de um novo espetáculo. Para saber quando a janela se abrirá, fique de olho na página do grupo no Facebook (facebook.com/esparrama).

P.S 2: Aos amigos cariocas: sim, é possível amar Essepê!

Matéria publicada no São Paulo Times, dia 19.06.14.